Um Ser sobrenatural não pode vir do natural

Uma vez, ao chegar a comida em um almoço com professores e colegas do grupo de pesquisa no mestrado, me posicionei para orar silenciosamente, foi quando alguém da mesa começou a fazer piadas zombando da atitude, naquele momento eu sorri e levei na esportiva. Entretanto, comportamentos como esses revelam o quanto a fé, ou a religião, é muitas vezes descrita como uma fraqueza. Algo que é nada mais que um resquício de um tempo primitivo da humanidade. Uma tentativa covarde de enfrentar a vida ao precisar de um amigo imaginário para se apoiar. E para dar suporte a esse posicionamento, utilizamos um argumento “crono-cognitivo” onde descrevemos a visão a respeito de um Deus como resultado de um pensamento primitivo construído no início da história humana reflexo do pouco desenvolvimento humano.

Em primeira perspectiva, até que o raciocínio anterior possui alguma validade. Entretanto, ao olharmos com mais cuidado percebemos que não há nada de simples em construir um conceito de divindade e aplicá-lo na explicação de fenômenos naturais, muito menos é simplório o pensamento de que essa divindade teria qualquer interesse em nós. E para ver isso, basta imaginar que a ideia de divindade foge completamente ao escopo da realidade imediata de qualquer ser humano. Dizendo de outra forma: Como a ideia de uma divindade, um criador e ainda que se interessa por nós poderia emergir de uma realidade puramente material e naturalista como era a dos povos primitivos?

A concepção de um ser superior é totalmente diferente de qualquer realidade experimentada pelo ser humano, especialmente um Deus como o descrito pela Bíblia, onisciente, onipotente, onipresente e ainda triúno. Seria como os índios do Brasil, na época do descobrimento, conceberem um deus que tivesse a forma e as propriedades de uma inteligência artificial. É uma construção que está além da imaginação de qualquer povo. Nem a ideia de Deus poderia ser concebida puramente a partir da natureza, por povos antigos. Não há como inventar Deus! A mera concepção de Deus é algo de extrema complexidade cujas propriedades estão além da mente humana.

Se Deus não é uma ideia concebível por seres primitivos por ser complexa demais, então deve ser anterior e independente do homem. Sendo isso verdade, não podemos tratar a fé e a religião como ecos de um tempo primitivo ou de pensamentos rudimentares. Antes, a experiência religiosa é uma verdade presente e necessária que a natureza humana clama por experimentar. Assim com o vencedor do prêmio nobel e um dos fundadores da moderna mecânica quântica observou, a verdade religiosa é algo que não podemos negar e muito menos zombar.

A inteligência humana é uma obra de Deus!

Uma das experiências mais singulares que vivi foi quando estive no Louvre em Paris, um dos museus mais famosos do mundo. Havia um grande grupo de pessoas esperando que as portas abrissem. Eu decidi apenas seguir a “manada” e ver onde iria dar. E foi o que fiz, os portões se abriram, e todos aceleraram os passos. Fiquei meio sem entender o comportamento quase uniforme do público, mas os segui. E depois de atravessarmos vários salões, chegamos em frente a um pequeno quadro, protegido por seguranças e atrás de uma grossa parede de vidro. Era a Monalisa, pintada por Leonardo da Vinci (1452-1519). Foi surpreendente ver que um quadro tão pequeno causasse esse frisson. Por que? A resposta vem logo que você para e contempla essa obra prima da criação humana. Um rosto simples, até comum, mas que esconde suas emoções de forma sutil, deixando o observador inquieto a perguntar se está ou não sorrindo!

Pois é, a Monalisa é um exemplo que demonstra a capacidade do ser humano em admirar, reproduzir e criar obras fenomenais. E isso não se restringe a arte, pois está por todos os lados. Por exemplo, a ciência é a mais evidente demonstração da capacidade humana de decifrar a natureza e ainda usá-la pra seu benefício. Mas a pergunta que quero fazer é: Por que? De onde vem essa habilidade tão singular de “compreender, buscar e fazer”, como observou Galileu? Quando, em uma proposta evolutiva, o ser chamado homem deixa de ser um mero animal e passar a ser capaz de tantos feitos?

Assim como já sabemos que vida não pode vir de algo não-vivo, parece-me evidente que criatividade, inteligência e curiosidade também não podem vir de algo que já não as possua. A pesquisa científica não tem essa resposta, apenas hipóteses que carecem do mínimo de comprovação para chegar ao status de teoria científica.

Por outro lado, a fé cristã mais uma vez se sobressai ao apresentar o ser humano como uma obra singular feita pelas mãos de um Ser criativo, inteligente, admirador da beleza e que criou o homem conforme sua imagem e semelhança (Gn 1:26).

Dessa forma, nossa natureza é perfeitamente explicada como um reflexo dos atributos do nosso Deus.

Deus é uma matemático!

Dirac apresentou uma equação cuja solução previa a existência de uma partícula semelhante ao elétron mas com carga elétrica positiva. Anos depois essa inusitada partícula foi observada, chamada de pósitron. Quando perguntado sobre como foi capaz de fazer tamanha previsão Dirac respondeu “minha equação é mais inteligente que eu”.

Pois bem, entender a beleza da harmonia matemática presente na natureza sempre será um desafio para a mente de alguém que não acredita na existência de um criador inteligente. Entretanto, para o cristianismo, esse não é o caso.

O Deus apresentado nas escrituras expõe sua inteligência e sabedoria através de sua criação. Criação tão inteligente essa que se manifesta através de leis matemáticas precisas e de seres criados segundo sua imagem que são capazes de compreender essa ciência matemática.

Einstein ateu?

Para quem achava que Einstein era ateu ou defendia o panteísmo de Spinoza veja que o mesmo era contrário a essa visão, mesmo que não defendesse um deus personificado.

Max Jammer, autor do livro Einstein e a religião; física e teologia, observa que:

“Einstein sempre protestou contra o fato de ser visto como ateísta. Em uma conversa com o príncipe Hubertus de Lowenstein, ele declarou que ficava zangado com pessoas que não acreditavam em Deus e o citavam para corroborar suas idéias. Einstein repudiou o ateísmo porque nunca viu sua negação de um deus personificado como uma negação de Deus”

Ainda, segundo Max Jammer, Einstein sustentava que
Deus se manifesta “nas leis do universo como um espírito infinitamente superior ao espírito do homem, diante do qual nós, com nossos modestos poderes, devemos nos sentir humildes”.

Pensar é o que nos torna humanos!

Como seres feitos a imagem de Deus, possuímos a individualidade, e essa é marcada pela nossa capacidade de pensar, julgar e avaliar.

Sem o exercício da reflexão e do pensamento perdemos aquilo que mais nos aproxima de Deus.

Dessa forma, nossa relação com o criador não pode suprimir a reflexão e pensamentos profundos.

Com isso em mente nossa adoração precisa ser um estimulante da reflexão e pensamento.

“Vinde e vamos pensar” Is 1:18

Conhecer para ser!

Na cultura hebraica, conhecer é mais que saber sobre, é experimentar. Quando experimentamos profundamente algo, ou seja, quando o conhecemos verdadeiramente adquirimos uma intimidade com o alvo de nosso conhecimento. Não há como não ser transformado segundo a semelhança do objeto conhecido. Se essa transformação não está ocorrendo, é por que não estamos conhecendo verdadeiramente.

Um Deus que Pode, Sabe e Age!

Um dos pais do Cálculo, Leibniz, apresenta três características essenciais de Deus.
A primeira, o PODER. Deus PODE! Deus tem a capacidade de realizar o que quiser. E a compreensão desse fato precisa nos tornar mais submissos ao que as Sagradas Escrituras dizem. Se Deus diz que fez, Ele fez. E ponto. Não somos, pelo menos do ponto de vista bíblico, capazes de exaurir o conhecimento sobre Deus a ponto de limitar sua ação pelo que julgamos ser possível ou não, pois Ele PODE! E esse poder não é limitado em nada, que não apenas aos seus próprios atributos. Deus é o único que possui, de forma absoluta esse atributo. O que significa que Ele, absolutamente, PODE!

Leibniz apresenta outra característica inerente somente a Deus. Ele tem o CONHECIMENTO! Ou seja, Deus sabe. E isso é novamente algo que somente Deus pode ter. Todos os outros são criaturas, por isso estão sabendo. Ou seja, passam por um processo de aprendizado contínuo que mesmo a eternidade nunca vai exaurir. Já Deus, simplesmente sabe! Como Criador e como sustentador de toda realidade, inclusive do tempo, Deus conhece TODA a realidade. Você pode até supor que algo está além do conhecimento dEle, mas é uma mera ilusão. Portanto, quando Ele te ama, te ama como você é, com tudo o que é e com tudo o que irá ser. Mas Ele SABE o que você deve ser para seja verdadeiramente feliz. Não é você que sabe, pois é criatura, é Ele que SABE pois é o Criador!

E o último predicativo destacado por esse cientista cristão é o que ele chama de Vontade, ou seja, o seu interesse e ação. Deus, apesar de autossuficiente, age, criando e recriado. Para quê? Pelo princípio de melhor, segundo Leibniz, ou um princípio que outros poderiam chamar de Perfeição, pois um Deus perfeito busca o melhor. Mas eu prefiro algo mais pessoal: Deus tem a Vontade, porque ele Age, e Age por um princípio mais fundamental, o AMOR! Pois só o amor pode explicar o fato de um Ser completo e perfeito, portanto, um Ser que não precisa de NADA, escolher exercer sua vontade em criar outras criaturas inteligentes e livres na forma de pensar para que, com tal liberdade, poder desenvolver uma relação de AMOR com Aquele que PODE, SABE e AGE.

@cristianismoabsoluto

O que é adoração bíblica?

Introdução

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Adoração é um dos assuntos mais debatidos e um dos mais perguntados para pastores. Por isso, falar sobre adoração é complicado justamente porque corre-se o risco de ser irrelevante, apenas repetindo o que todos já falaram. Pensando nisso, resolvi tentar uma abordagem um pouco diferente de tudo o que eu já havia dito e ouvido sobre o assunto nas igrejas.

Abramos nossas Bíblias em Jó 1:18 a 20 :

Enquanto este ainda falava, veio outro e disse: Teus filhos e tuas filhas estavam comendo e bebendo vinho em casa do irmão mais velho; e eis que sobrevindo um grande vento de além do deserto, deu nos quatro cantos da casa, e ela caiu sobre os mancebos, de sorte que morreram; e só eu escapei para trazer-te a nova. Então Jó se levantou, rasgou o seu manto, rapou a sua cabeça e, lançando-se em terra, adorou;

Como é possível adorar a Deus logo após ter perdido os filhos e rasgar as próprias roupas de desespero? Como é possível adorar a Deus quando tudo falha? Α resposta a esta pergunta esta no final de um caminho com muitas paradas que nos ajudam a descobrir mais sobre adoração contemporânea, adoração bíblica e como se tornar um verdadeiro adorador.

Onde estamos: origem da adoração emocional

Bem… eu vou começar com uma pergunta um pouco diferente: Você escova os dentes todos os dias?

Pode parecer uma pergunta totalmente doida, mas ela tem um sentido.  A grande maioria das pessoas que você conhece escova os dentes diariamente e o fazem com pasta de dentes. Agora de onde veio isso? Porque fazemos assim? Escovar os dentes é algo natural, faz parte do nosso dia a dia, mas porque fazemos isso? De onde surgiu esse hábito? Eu digo isso porque a primeira escova de dentes surgiu em 1498 na china e era feita com pelos de porco, mas, apesar de ser tão antiga, até o começo do século XX grande parte da população mundial não escovava os dentes…

Foi apenas em meados de 1900 que um publicitário chamado Claude Hopkins teve uma grande sacada. Ele fez uma propaganda dizendo que se você passasse a língua por cima dos dentes iria sentir uma película áspera que, segundo ele, era nociva e favorecia o apodrecimento dos dentes. As pessoas liam o anúncio, passavam a língua nos dentes, sentiam a película e decidiam escovar os dentes (como você provavelmente  acabou de fazer). O sucesso foi tão grande  que, dez anos depois da propaganda, o percentual de americanos que escovavam os dentes foi de 7% para 65%, e em 1930 a pepsodent ( creme dental da propaganda) já estava sendo vendida até na China e na África. Escovar os dentes virou algo natural.

Mas afinal, o que isso tem a ver com adoração?

Schleiermacher

Fique tranquilo, escovar os dentes pouco tem a ver com adoração. Apesar disso, existe aqui um padrão interessante. Hoje todos nós fazemos uma determinada coisa porque em algum momento alguém teve uma ideia que influenciou o mundo. Essa influência foi tão intensa que a julgamos com algo natural, tão natural que nos gera estranheza pensar que um dia foi diferente. O mesmo acontece com adoração, querem ver?

Friedrich Schleiermacher (1768-1834), foi um dos maiores filósofos e teólogos da era moderna. Na época de Schleimacher, o iluminismo havia dito que a Bíblia não servia para muita coisa e não passava de um livro antiquado, fruto de vários autores tardios que haviam inventado algumas histórias. Schleiermacher quis defender a Bíblia dentro dos pressupostos iluministas. Ele concordou com os iluministas que a Bíblia não era inspirada  e não era a palavra de Deus, mas defendeu que Deus falava por meio do sentimento que a leitura da Bíblia infundia no leitor. Em outras palavras, ele retirou todos os aspectos racionais e objetivos da Bíblia e enfatizou os emocionais e subjetivos. O importante não seria o que a Bíblia dizia, mas sim o que se experimentava, o que se sentia, ao ler a Bíblia, mesmo que fosse totalmente diferente do que outros tivessem sentido.

Daí em diante, a ênfase da adoração e da prática religiosa passou a ser emocional e experimental. A adoração passou a ser enfatizada nas áreas mais artísticas onde havia espaço para que os sentimentos falassem o que as palavras não conseguiam; foi dada uma ênfase na religião do experimentar e do sentir. Finalmente, alguns grupos retiraram por completo o elemento objetivo da adoração com falar em línguas de mistério e movimentos como a unção dos seres, cair no Senhor e etc. O experimental se tornaria dominante.

Bem, certamente existem alguns que estão pensando “esses pentecostais…” quando, na verdade, eu preciso dizer que muito do que Schleiermacher disse afetou a forma como nós adoramos hoje na sociedade Cristã em geral. Mesmo no meio adventista essa influência é visível. Graças a influência de Schleiermacher, música e adoração se tornaram termos quase sinônimos porque na música podemos expressar nossos sentimentos mais abertamente (e muitas vezes as letras são um ponto secundário); momentos do culto foram considerados como não sendo de adoração e  conversar e divagar não são considerados irreverência nesses momentos; um bom sermão é aquele que faz você chorar ou se emocionar profundamente, arrependimento é se sentir profundamente triste por algo; pregadores falam que a essência da religião é ter uma experiência com Deus; Um bom louvor é aquele que te faz sentir animado ou contrito; a experiência de um culto é mais valorizada que seu conteúdo  e etc.

Importante frisar: não estou dizendo que adoração deva ser desprovida de uma dimensão emocional ou experimental. Quero mostrar que muito do que chamamos de adoração hoje é fruto de ideias que desconsideram a Bíblia como palavra de Deus e se focam no humano. Quero mostrar que muito dos nossos padrões do que é uma “boa” e uma “má” adoração passa por filosofias contrárias à Bíblia. Apesar disso, muitas vezes nós achamos isso absolutamente normal e fazemos uso destes conceitos como se eles fossem intrínsecos à adoração.

E antes que tomem conclusões precipitadas, esse é um mal comum a conservadores como a liberais. Isso porque ambos grupos costumam apelar para o tipo de experiência e sentimentos que determinada forma de adoração transmite. Afinal, você sempre vai achar pessoas que defendem que algo possa ou não ser feito na igreja por conta da experiência que aquilo vai criar.

Adoração bíblica

Adoração é diferente de dar glórias e cantar

Mas se tanto sobre a forma como adoramos vem de pensadores modernos, o que podemos dizer da adoração bíblica? A palavra adoração é uma palavra que parece ser bem comum a todos nós, contudo na Bíblia esta palavra não é muito comum. Para falar a verdade, quase todas as vezes em que a palavra adoração ocorre em nossas Bíblias ela se refere a uma expressão que seria mais literalmente traduzida como “prostrar-se” ou “ajoelhar”. É o que acontece nos seguintes textos:

Então toda a congregação adorava, e os cantores cantavam, e os trombeteiros tocavam; tudo isso continuou até se acabar o holocausto. II cron 29:28

Toda a terra te adorará e te cantará louvores; eles cantarão o teu nome. Sal 66:4

O mesmo ocorre no Novo Testamento: a palavra apresentada como adorar é mais literalmente traduzida por prostrar-se. Por exemplo, temos os seguintes textos:

Disse o homem: Creio, Senhor! E o adorou. João 9:38

Então os vinte e quatro anciãos e os quatro seres viventes prostraram-se e adoraram a Deus que está assentado no trono, dizendo: Amém. Aleluia! Apoc 19:4 

Percebam que eu escolhi alguns versos que deixam isso um pouco mais claro, uma vez que se coloca que a congregação adorava e cantava louvores. Os textos deixam claro que louvor e adoração são coisas diferentes, e isso  pode soar estranho justamente porque o nosso conceito de adoração é diferente.

Parece meio confuso não parece? Afinal, como é que podemos diferenciar quando alguém adora de quando alguém se prostra?  Será que esse estudo pode realmente explicar adoração? Parece que estamos falando de coisas diferentes não parece? Por conta disso, vamos continuar olhando alguns outros textos.

Adoração a Deus é semelhante a prostrar-se para o rei

Lendo um dos versos que mencionei você pode ter percebido uma coisa interessante, existe ali um exemplo de alguém que se prostrou e adorou. São duas palavras sinônimas seguidas. Ou seja, é como se fosse algo como “prostrar-se e prostrar-se”. Isso dá a entender que, teoricamente, as duas não poderiam ter o mesmo significado. Então eu fui procurar essas palavras juntas pra ver se este poderia ser uma expressão mais específica para adoração, e o que eu achei foi muito interessante. Eu achei versos como esses:

E o povo creu; e quando ouviram que o Senhor havia visitado os filhos de Israel e que tinha visto a sua aflição, inclinaram-se, e adoraram. Êx 4:31

Então Jeosafá se prostrou com o rosto em terra; e todo o Judá e os moradores de Jerusalém se lançaram perante o Senhor, para o adorarem. 2Cr 20:18

Mas também achei versos como esses aqui:

Então disse Davi a toda a congregação: Bendizei ao Senhor vosso Deus! E toda a congregação bendisse ao Senhor Deus de seus pais, e inclinaram-se e prostraram-se perante o Senhor e perante o rei. 1Cr 29:20  

Responderam eles: O teu servo, nosso pai, está bem; ele ainda vive. E abaixaram a cabeça, e inclinaram-se. Gn 43:28

Olha só que interessante: A mesma expressão utilizada para adorar a Deus é utilizada para se prostrar diante de reis e governantes. Isso pode significar duas coisas: ou devemos tratar os governantes de uma forma semelhante como tratamos Deus (o que seria idolatria), ou devemos tratar Deus de uma forma semelhante como tratamos com os governantes.

No Novo Testamento a mesma palavra utilizada para adoração pode ser utilizada para outras pessoas senão Deus:

Então aquele servo, prostrando-se, o reverenciava, dizendo: Senhor, tem paciência comigo, que tudo te pagarei. Mt 18:26

Adoração é submissão

 Essas passagens noite mostram que adoração invoca uma relação entre Senhor e servo, entre Rei e vassalo; uma relação de submissão e lealdade. Considerar isso afeta diretamente nossa visão de  como devemos adorar a Deus e de como vivemos a nossa fé. Isso porque se entendemos que adoração a Deus é cantar, dar glórias ou se derramar emocionalmente, podemos fazer isso com toda a sinceridade de coração e mesmo assim viver uma vida que não seja verdadeiramente submissa. Contudo, se formos verdadeiramente submissos não iremos cantar glórias e louvores de maneira inadvertida.

Querem ver um exemplo? Pense num pai ou mãe de uma criança pequena. Se você for pai ou mãe certamente ama seus filhos, certamente tem uma sincera afeição por eles e certamente está preocupados o melhor para eles. Contudo, quando uma criança dá um “chilique” e fala “EU QUERO ISSO!!!” e o pai nega esse desejo, este pai deixou de amar a criança? De maneira alguma, ele apenas não está submisso a ela.

Essa pequena ilustração demonstra que uma relação sincera e verdadeira, transbordante de amor e sentimentos não é necessariamente uma relação de submissão. Da mesma forma, eu posso ter um relacionamento real, vívido, sincero e bonito com Deus sem que este relacionamento implique em submissão, sem que este relacionamento implique em adoração verdadeira.

É o que diz:

Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. Mt 7:21

Ou seja, nem todo que  e aceita a Deus entrará no reino dos céus, mas sim aquele que faz a vontade de Deus, aquele que obedece, aquele que se submete.

Consegue perceber como a Bíblia é clara em mostrar que Deus não espera apenas um relacionamento com Ele, Deus espera um relacionamento de adoração, um relacionamento de submissão. Isso significa que um verdadeiro adorador não é aquele que se manifesta artisticamente, ou verbalmente, ser um verdadeiro adorador significa fazer a vontade de Deus.

Ser um adorador significa obedecer a Deus, ser um adorador significa guardar os mandamentos de Deus, ser um adorador significa ser fiel a Deus. Em outras palavras, não adianta você vir a igreja, passar horas cantando, horas orando, se entregar de uma forma emocional verdadeira e sincera se você não está preocupado em fazer a vontade de Deus fora da igreja.

Adoração se faz em casa, tratando bem a família, respeitando o próximo, sendo fiel ao seu cônjuge, sendo um bom cidadão; adoração se faz no trabalho, sendo honesto, fazendo o seu melhor, guardando o sábado; adoração se faz na escola e na faculdade, sendo honesto em não colar, sendo exemplo. Adoração se faz no campo de futebol cuidando do linguajar, não jogando sujo. Enfim… adoração se faz em todos os lugares em toda a hora.

Um bom exemplo está na história do teólogo e espião Dietrich Bonhoeffer em uma de suas frases: “Só os que gritam ao lado dos judeus têm direito a entoar cantos gregorianos”. Bonhoeffer disse isso durante a segunda guerra mundial, em um momento que Hitler estava perseguindo os judeus e pressionando a igreja alemã. O ditador dava favores aos religiosos que o obedeciam ao mesmo tempo em que perseguia os cristãos que discordavam dele. Foi uma época em que alguns líderes religiosos  eram perseguidos e mortos (como o próprio Bonhoeffer seria) enquanto outros se escondiam. A ideia da frase dele era simples: Aqueles que não estavam dispostos a amar ao próximo como a si mesmo e a serem mais submissos a Deus que ao governo nazista não eram dignos de cantarem hinos nas igrejas. “Só os que gritam ao lado dos judeus têm direito a entoar cantos gregorianos”.

O mesmo acontece hoje, mas de uma forma muito mais fácil e sútil. Hoje não arriscamos nossas vidas para adoração. Nós arriscamos salários, amizades, namoros, ou coisas ainda mais fúteis como horas de sono, prazer na comida, curtidas no Instagram etc. Damos preferência a tudo isso em detrimento de uma verdadeira adoração.

Hoje pensamos que se cantarmos, que se nos chamarmos de cristãos ,que se oramos de maneira intensa, que se chorarmos em um apelo estamos sendo adoradores, quando na verdade ser adorador é se submeter à vontade de Deus, é fazer o que Deus te pede.

Ser um adorador é aceitar os chamados de Deus pra você, é aceitar quando Deus te dá tem uma missão. Ser adorador é se entregar a Deus de forma real. É muito mais que ser obediente, é ser um súdito, um vassalo, um servo de Deus. É servir  com o mesmo entusiasmo e emoção que se canta; é evangelizar com o mesmo sentimento que se grita aleluia; É abrir mão dos prazeres proibidos com a mesma intensidade que se entrega em um apelo emocional.

Conclusão

Irmãos… Adoração não é demonstração de emoções, não é uma experiência, não é louvar; contudo, tudo isto pode estar incluso na adoração. Mas talvez a pergunta real, e talvez a verdadeira questão aqui seja: Você vai adorar quando a tristeza chegar, você vai adorar quando a experiência for desagradável, será que quando as lágrimas correrem pelo seu rosto você ainda será um adorador? Quando a música acabar, quando os amigos se forem, quando a voz falhar, quando o peito apertar, você ainda será um adorador? Quando o tédio só for superado pela agonia você ainda será um adorador?

Você ainda será um adorador quando Deus lhe chamar para fazer algo que você não quer? Será um adorador quando Deus lhe ordenar algo que vai gerar uma experiência desagradável?

Então Jó se levantou, rasgou o seu manto, rapou a sua cabeça e, lançando-se em terra, adorou; Jó 1:20

A música, o louvor, as emoções, a alegria tudo isso infelizmente pode sumir, mas a verdadeira adoração vai além de sentimentos, a verdadeira adoração supera o louvor, supera a alegria. A verdadeira alegria está em se submeter ao Senhor. 

Seja hoje um verdadeiro adorador, adore a Deus de maneira verdadeira. Submeta-se a Deus independentemente de como você se sente, independentemente da situação, da experiência, da animação, submeta-se a Deus agora. Adore verdadeiramente.

Obs: As citações e referências usadas foram omitidas por se tratar de um texto não técnico.

Autor: Bruno Flávio, formado em direto pela UNIP-DF, teologia e master in arts em teologia bíblica pelo UNASP-ec.