Quem é o Eu Sou? 5- Um Deus que se interessa.

Para você, Deus se interessa ou não por nós?
Uma resposta que tem conquistado muitos adeptos supõe que não. O deísmo é uma visão de mundo que até admite a existência de um ser todo-poderoso e criador do universo, mas afirma que, após tê-lo feito — pelo menos em sua forma primária —, Ele teria deixado tudo seguir suas próprias leis, sem mais intervir em sua criação. Assim, qualquer tentativa de estabelecer comunicação com esse ser superior seria inócua e irrelevante.

A pergunta que devemos fazer é: seria o Deus apresentado pelo cristianismo esse tipo de ser? Será que o “Eu Sou” se encaixa nesse perfil? Está Deus longe e desinteressado por nós, ou deseja se comunicar conosco?

O livro de Hebreus responde:

“Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo” (Hb 1:1-2, ARA).

O escritor bíblico destaca dois pontos fundamentais. Primeiro: Deus deseja se relacionar conosco, e esse relacionamento se fundamenta na revelação de si mesmo — inicialmente por meio dos profetas e, de forma suprema, através de seu próprio Filho, a perfeita expressão de sua imagem. Segundo: o Filho, que veio revelar o Pai, é também coautor do universo. Portanto, dissociar o amor de Jesus do Criador é negar a própria verdade bíblica.

Isaías confirma o interesse pessoal e profundo de Deus:

“Assim diz o Alto e Sublime, que habita na eternidade, e cujo nome é Santo: Habito no alto e santo lugar, mas habito também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos e para vivificar o coração dos contritos” (Is 57:15, ARA).

Aqui, duas dimensões do caráter divino se harmonizam: ao mesmo tempo em que governa o universo em majestade, Deus manifesta cuidado íntimo por cada pessoa que clama por sua presença.

Portanto, a questão não é se Ele deseja se relacionar conosco, mas se nós aceitaremos descer do trono de orgulho que construímos para permitir que Ele habite em nós. Talvez o deísmo não seja senão uma expressão do desejo humano de que Deus não se importasse conosco — apenas para que não precisássemos decidir entre aceitar ou rejeitar o Seu convite de amizade.

Mas o fato é que Deus, Jesus e o Espírito Santo já fizeram tudo o que podiam para restaurar esse relacionamento. Negar isso é impossível; a decisão agora é nossa. Deus não é um criador distante, que nos abandonou em um mundo marcado pela dor. Tal ser seria sádico, omisso diante do sofrimento humano. Pelo contrário: Ele se envolve conosco, sofre por nós e nos chama para uma relação transformadora.

É verdade: começar um novo relacionamento não é fácil. Mas aquele que o convida conhece cada detalhe de sua vida. Ele sabe de seus defeitos mais ocultos, e mesmo assim quer estar ao seu lado. Mais que isso: quer cuidar de você, quer amar você de forma completa e verdadeira. Não há necessidade de fingimento: basta permitir-se ser transformado à imagem e semelhança desse novo companheiro.

Não há o que temer. A mão dEle já está estendida. Estenda a sua.

“Até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados. Não temais! Bem mais valeis do que muitos passarinhos” (Lc 12:7, ARA).

A questão não é se Deus está interessado em nós, mas se estamos dispostos a responder ao Seu interesse eterno.

Inspirado no livreto: “Fundamental Focus” produzido pelo ministério americano “Genesis Road” .

Quem é o Eu Sou? 4- Deus é todo poderoso!

“Quem é Deus?” Essa pergunta nos acompanha desde sempre e, embora saibamos que a resposta completa esteja muito além de nossa capacidade, continuamos a refletir sobre ela. Mas, neste momento, gostaria de propor uma pergunta secundária: qual é a primeira resposta que costumamos receber?

Não sei se você concorda, mas com frequência leio e ouço que: Deus é todo-poderoso! O poder ilimitado de Deus é a característica mais utilizada para representá-lo. São inúmeras as músicas e poemas que exaltam Seu poder. A própria Bíblia descreve sua grandeza em várias passagens: “Grande é o Senhor e muito digno de louvor; e a sua grandeza, inescrutável” (Sl 145:3); ou ainda: “Porque para Deus nada é impossível” (Lc 1:37). Segundo esses versos, o poder de Deus não é apenas infinito, mas também uma razão para louvá-lo.

Em outra passagem, o profeta Isaías descreve quão pequenos somos diante da grandeza divina: “Quem mediu as águas na concha da mão, ou com o palmo definiu os limites dos céus? Quem jamais calculou o peso da terra, ou pesou os montes na balança e as colinas nos seus pratos?” (Is 40:12). O próprio Deus se apresenta de forma superlativa, tanto no tempo quanto no espaço: “Eu sou o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim, diz o Senhor, que é, e que era, e que há de vir, o Todo-Poderoso” (Ap 1:8).

A Bíblia ainda utiliza como referência identificadora do Deus judaico-cristão a criação do mundo: “Fez os céus, a terra, o mar e as fontes das águas” (Ap 14:7; cf. Ex 20:11). Mas vai além: Deus não possui apenas o poder para criar, Ele também é o sustentador de todas as coisas: “E riquezas e glória vêm de diante de ti, e tu dominas sobre tudo, e na tua mão há força e poder; e na tua mão está o engrandecer e dar força a tudo” (1 Cr 29:12).

Portanto, é evidente que o imenso poder de Deus é uma marca definidora de sua identidade. Mas seria essa característica o que O torna TODO-PODEROSO? A resposta é: não!

A justificativa para essa afirmação pode ser entendida com uma pergunta: como seria o governo do universo se Deus, possuindo todo o poder que tem, tivesse o caráter de um tirano como Adolf Hitler ou Joseph Stalin? O estado que reinaria no cosmos seria o medo, e não o amor — o que tornaria impossível a felicidade verdadeira. Esse cenário demonstra que, mesmo com poder infinito, sem amor Deus não poderia estabelecer um governo de plena alegria.

O que torna Deus verdadeiramente o Todo-Poderoso é o seu caráter. É Seu caráter de amor (cf. artigo anterior desta série: Deus é amor!) que faz com que Ele submeta todo Seu poder a um único propósito: servir e abençoar todos os seres criados, produzindo o mais alto grau de satisfação e felicidade.

Como consequência, as criaturas de Deus respondem com confiança, gratidão e amor, entregando-se voluntariamente em submissão a esse Deus que é amor. E aqui está a razão mais forte para chamá-lo de Todo-Poderoso: existe algo que nem mesmo o poder ilimitado de criar e sustentar o universo pode conquistar — o amor de seres inteligentes e livres. Esse amor só pode ser alcançado por meio do caráter de Deus. Ainda que ameaçasse com dor ou morte, Ele jamais receberia amor sincero sem que fosse fruto de Sua natureza amorosa.

Ao experimentarmos o poder de Deus a serviço de Seu caráter, é que retribuímos em amor. Nesse contexto, as palavras do profeta Zacarias ganham novo significado: “Esta é a palavra do Senhor para Zorobabel: ‘Não por força nem por violência, mas pelo meu Espírito’, diz o Senhor dos Exércitos” (Zc 4:6).

Que, de agora em diante, seja o caráter de Deus aliado ao Seu infinito poder que nos motive a amá-lo, segui-lo e reconhecê-lo como o TODO-PODEROSO!

 

Inspirado no livreto: “Fundamental Focus” produzido pelo ministério americano “Genesis Road” .

Quem é o Eu Sou? 3- Deus é amor!

Em meio a uma sociedade com tantas visões e representações confusas acerca do caráter de Deus e do amor, uma declaração bíblica permanece firme como uma rocha no oceano, inabalável mesmo sob fortes ondas: “Quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor” (1 Jo 4:8).

Quando muitos afirmam que “Deus é amor”, entendem que Ele age de maneira amável, doce e solícita para com a criação. Entretanto, quando a Bíblia declara que Deus é amor, vai muito além de Suas ações: expressa algo profundo sobre o caráter de Deus. Não afirma que Ele tem amor, mas que Ele é amor. Portanto, todo o Seu ser é amor. Ele não apenas age com amor — Ele incorpora o amor.

Deus não tem amor, Ele é!
Deus não está amando, Ele é!
Deus não está apenas agindo com amor, Ele é!

Esse amor não é sentimental, momentâneo, condicional ou egoísta. É, como descrito em 1 Coríntios 13, uma postura, uma escolha, um princípio de vida centrado na felicidade plena e completa do outro. É existir para prover, servir, ajudar e doar-se, a despeito do próprio interesse.

Um dos textos mais conhecidos da Bíblia esclarece ainda mais esse conceito: “Porque Deus tanto amou o mundo que deu o seu Filho Unigênito, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3:16). Amar é dar. E Deus, sem ser movido por sentimentos passageiros, escolheu dar o que tinha de mais precioso a quem nada fez para merecer. Por isso, não podemos tratá-lo como alguém a ser conquistado para então nos abençoar. Sua natureza já o define como Aquele que se doa livremente.

Quando a Bíblia afirma que Deus deu o Seu Filho, derruba também a ideia de que Ele tenha sido obrigado a isso, pois o amor nunca é forçado nem algo que surge sem a liberdade de escolha. Por essa razão, não pode ser um simples impulso emocional. Um exemplo humano ajuda a entender: o amor de uma mãe. Ela não ama o filho apenas quando obedece ou tira boas notas. Ama-o também quando, em desespero, a agride para obter dinheiro a fim de sustentar vícios. Quais emoções ela sente nesse momento? Certamente não são boas. Mas, se lhe perguntarem, ainda assim responderá: “Eu o amo”. Esse é o amor bíblico — um princípio, não um mero sentimento.

Outra forma de perceber a profundidade da declaração “Deus é amor” é por meio da trindade. Sendo três em um — Pai, Filho e Espírito Santo —, Deus já vivia em perfeita comunhão de amor antes de criar qualquer ser. Isso contradiz a ideia de que Ele nos criou porque precisava de amor. A própria trindade é uma comunidade autossuficiente em amor. E sua dinâmica é de doação mútua: o Pai exalta o Filho (Fp 2:9), o Pai exalta o Espírito (Zc 4:6), o Filho glorifica o Pai (Jo 10:29), o Filho glorifica o Espírito (Jo 14:26), o Espírito glorifica o Pai (Gl 4:6) e o Espírito glorifica o Filho (Jo 15:26). Desde a eternidade, cada Pessoa da trindade vive centrada na felicidade do outro. Portanto, Deus nos criou em coerência com Sua natureza: doar-se e entregar-se para o benefício dos outros. A trindade demonstra que o amor é o princípio nuclear do Deus triúno.

O amor bíblico é, portanto, doação completa. E qual é a maior doação possível? A vida. É quando doamos a própria vida por alguém — o maior bem que possuímos. Jesus declarou: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida pelos seus amigos” (Jo 15:13). Mas o amor da trindade foi ainda além: não apenas doar a própria vida, mas permitir que a vida de um Filho amado fosse entregue por aqueles que O rejeitaram.

No contexto de um mundo regido pelo princípio do egoísmo, esse seria o ápice em termos de doar-se para o benefício do outro. Contudo, em se tratando de um mundo cujo amor é princípio central, o maior sacrifício que se pode fazer por amor não é dar a própria vida, mas sacrificar a vida de alguém que você ama para salvar o outro. Pense: uma mãe poderia dar a própria vida pelo marido, mas entregaria seu filho para salvá-lo? Nunca! E, no entanto, foi isso que Deus fez. A trindade, em comunhão eterna, testemunhou a entrega do Filho amado para salvar aqueles que sequer desejavam essa salvação. Novamente, fazendo uso da analogia familiar, seria como uma mãe que entregasse seu único filho para salvar o vizinho que nunca quis sequer falar com ela.

Nem de longe poderemos imaginar a dor que o sacrifício de Jesus causou no coração de toda a trindade ao separar aqueles que se amavam desde sempre. Mas, ainda que de forma limitada, refletir sobre esse sacrifício nos ajuda a compreender o peso da declaração: Deus é amor!

Deus te ama, te amou e sempre te amará!

“Deus é amor” (1 João 4:8), está escrito sobre cada botão que desabrocha, sobre cada haste de erva que brota. Os amáveis passarinhos, a encher de música o ar com seus alegres trinos; as flores de delicados matizes, em sua perfeição, impregnando os ares de perfume; as árvores altaneiras da floresta, com sua ramagem luxuriante — todos testificam da terna solicitude de nosso Deus e de Seu desejo de tornar felizes os Seus filhos.
— Ellen White, Caminho a Cristo, p. 10

Inspirado no livreto: “Fundamental Focus” produzido pelo ministério americano “Genesis Road” .

Quem é o Eu Sou? 2- Deus quer emocionar-se com você

Como você se sentiu ao reencontrar alguém que ama, depois de muito tempo? Ou quando conquistou aquela oportunidade tão sonhada? E ao perceber o carinho e a afeição vindos de alguém especial?
São as emoções que dão cor a essas experiências. Elas são a base de todo estado de satisfação e felicidade que experimentamos. Não é possível ser feliz sem se emocionar.

Assim como possuímos razão, possuímos também emoções porque fomos criados à imagem e semelhança de Deus. Sendo assim, a relação entre dois seres dotados de emoções deve naturalmente gerar estados emocionais (Lc 15:7). Deus deseja alegrar-se conosco e viver momentos de felicidade e prazer ao nosso lado.

No artigo anterior desta série, vimos que nossa relação com Deus deve estar fundamentada na razão. No entanto, no mundo moderno, onde razão e emoção muitas vezes são vistas como forças opostas, é comum pensar que valorizar a razão significa diminuir o papel das emoções. Mas essa visão não corresponde à perspectiva bíblica sobre o caráter do “Eu Sou”, nem aos achados mais recentes da ciência sobre o funcionamento do cérebro.

A Bíblia apresenta o Reino de Deus como algo que inclui um estado emocional saudável: “Pois o Reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, paz e alegria no Espírito Santo” (Rm 14:17). O próprio Jesus prometeu que o cumprimento final de Suas promessas resultará em alegria plena (Jo 16:20), mesmo que agora experimentemos dor e tristeza. Portanto, Deus não despreza as emoções, nem espera que as suprimamos; ao contrário, deseja gerar em nós alegria, paz e satisfação verdadeiras, fruto de um relacionamento íntimo com Ele.

A ciência também confirma a importância das emoções. Em Inteligência Emocional, Daniel Goleman mostra como elas são essenciais à experiência humana. Mas, como a razão e a emoção devem interagir para que experimentemos a felicidade plena? Tanto a neurociência quanto a Bíblia respondem de forma harmônica.

Segundo pesquisas em neurociência, estímulos externos chegam aos sentidos e são enviados ao tálamo, onde se transformam em linguagem cerebral. Em seguida, vão ao neocórtex (centro da razão), que avalia e decide como agir, enviando orientações à amígdala (centro das emoções). No funcionamento saudável, as emoções são fundamentais, mas devem ser guiadas pela razão. Timothy R. Jennings, em Simples Demais, ilustra: ao ver algo comprido sobre a grama, podemos sentir medo, mas a avaliação racional pode mostrar que se trata apenas de uma mangueira, e não de uma cobra — dissipando o medo.

Paulo ensina o mesmo princípio: “Portanto, irmãos, rogo-lhes pelas misericórdias de Deus que se ofereçam em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus; este é o culto racional de vocês. Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Rm 12:1-2). Neste texto, o apóstolo Paulo declara que precisamos passar por uma transformação mental e desenvolver um culto racional para então experimentar — de forma plena — a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.

A perspectiva paulina confirma o que a ciência observa: o funcionamento saudável do cérebro ocorre quando o sistema límbico, responsável pelas emoções, é coordenado pelo córtex pré-frontal, responsável pela razão e tomada de decisões conscientes. Isso não significa que razão e emoção estejam em competição, nem que uma seja mais importante que a outra; significa que, em termos de função, há uma ordem natural: a razão foi criada para orientar e guiar as emoções, e não o contrário. Quando essa ordem é respeitada, as emoções não apenas deixam de nos dominar, mas tornam-se mais estáveis, profundas e construtivas — exatamente o que Deus deseja gerar em nossa relação com Ele.

Assim, razão e emoção não competem; ambas são essenciais, mas cada uma deve ocupar seu lugar. Uma fé equilibrada é aquela em que o relacionamento com Deus é guiado pela reflexão consciente e resulta em emoções profundas, vivas e saudáveis.

O texto de Romanos deixa claro: minha relação com Deus precisa ser dirigida pela razão, mas não sem produzir emoções belas e intensas. Subestimar ou supervalorizar qualquer um desses aspectos me impedirá de experimentar a suprema felicidade de uma intimidade de amor com Deus.

O grande “Eu Sou” quer se emocionar com você!

 

 

Quem é o Eu Sou? 1- Deus espera que você use a Razão

Segundo a Bíblia, os seres humanos se diferenciam de toda a criação por uma característica especial: foram criados à imagem e semelhança de Deus (Gn 1:26). Se considerarmos que a capacidade de julgar, avaliar e pesar evidências — ou seja, o uso da razão — é uma de nossas habilidades mais distintivas, podemos compreender que Aquele que nos criou segundo Sua imagem também é um ser cujo uso da razão é essencial à Sua natureza.

O cerne de toda experiência religiosa é estabelecer uma relação com o transcendental. Sendo nós e Deus seres racionais, surge a pergunta: como seres racionais se relacionam? A resposta pode ser iluminada pelo livro do profeta Isaías: “Venham, vamos refletir juntos”, diz o Senhor (Is 1:18). Deus nos convida a pensar junto com Ele! Esse texto, simples mas profundo, revela o desejo divino de construir uma relação com a humanidade fundamentada no uso da razão e no exercício da reflexão. Ao nos comunicarmos com Deus, Ele não deseja que deixemos de lado nossa capacidade de pensar; ao contrário, quer que a utilizemos.

Outra evidência de que a razão é indispensável em nossa comunicação com Deus está na forma como Ele escolheu se revelar a nós. Segundo a compreensão tradicional, há duas maneiras principais pelas quais Deus Se manifesta:

  1. Revelação geral – Deus revela aspectos de Seu caráter por meio da criação, ou seja da natureza, Suas leis e princípios. “Pois desde a criação do mundo os atributos invisíveis de Deus, seu eterno poder e sua natureza divina, têm sido vistos claramente, sendo compreendidos por meio das coisas criadas, de forma que tais homens são indesculpáveis” (Rm 1:20). Para percebermos os traços divinos na natureza, é necessário raciocinar sobre Sua obra e refletir sobre ela.
  2. Revelação especial – Deus Se dá a conhecer de maneira mais precisa por meio da Bíblia, que descreve Seus atributos e Seu relacionamento com a humanidade. Mas, para compreender plenamente essa revelação, também é indispensável a reflexão e o estudo.

Assim, nas duas formas de revelação, Deus nos convida a usar a razão para conhecê-Lo.

O uso da razão na comunhão com Deus também preserva nossa individualidade e garante a liberdade dos seres inteligentes. Deus não força nossa resposta à Sua manifestação; Ele espera que escolhamos, de forma consciente, nos relacionar com Ele. Essa consideração é expressa em Apocalipse 3:20: “Eis que estou à porta e bato. Se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei e cearei com ele, e ele comigo.” Aqui vemos que nossas dúvidas e questionamentos são bem-vindos; Deus sempre estará disposto a nos explicar e indicar o caminho, mas nunca nos obrigará a segui-Lo.

Diante dessas implicações, podemos concluir que qualquer experiência religiosa que não esteja fundamentada no uso da razão — ou que a suprima — não permitirá uma interação plena entre seres inteligentes e o Deus da Bíblia. Portanto, toda manifestação religiosa genuína deve promover a reflexão e o pensamento, conduzindo-nos a uma fé consciente e sólida.

Inspirado no livreto Fundamental Focus, produzido pelo ministério americano Genesis Road.

Introdução a série: Quem é o “Eu Sou”?

Em Sua última prece ao Pai, antes de ser preso, Jesus fez uma declaração de valor incalculável:

“Esta é a vida eterna: que te conheçam, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste” (João 17:3, NVI)

Só por tratar da vida eterna — isto é, da superação da morte, fonte de tanta dor e angústia ao longo da história e jamais plenamente assimilada por qualquer cultura — essa afirmação já possui um peso extraordinário. No entanto, no contexto bíblico, vida eterna significa mais do que vencer a morte: trata-se de superar toda forma de infelicidade. É viver para sempre sem qualquer sofrimento, tristeza ou angústia — algo difícil de conceber para nós, que nascemos em um mundo marcado pela dor e alternamos entre momentos de alegria e tristeza.

Essa declaração de Jesus contém o segredo supremo da existência humana. E Ele deixa claro que Sua missão foi revelar o Pai: “Eu te glorifiquei na terra, completando a obra que me deste para fazer” (João 17:4). Glorificá-Lo diante dos homens era Seu objetivo central.

Se conhecer a Deus é o segredo para uma vida plena e feliz, esse deveria ser o foco principal de nossas atividades. Contudo, no mundo pluricultural em que vivemos — com mais de 20.000 denominações apenas no cristianismo — surgem dificuldades: qual caminho seguir para conhecer a Deus verdadeiramente? Muitas vezes, enxergamos Deus através de lentes denominacionais, enfatizando crenças e doutrinas específicas em vez de buscarmos a própria pessoa de Deus.

Por isso, iniciamos esta série com o propósito de apresentar as características mais essenciais do caráter divino e despertar em você o desejo de aprofundar-se nesse conhecimento.

O título escolhido, “Quem é o ‘Eu Sou’?”, foi inspirado em Êxodo 3:14:

“E disse Deus a Moisés: EU SOU O QUE SOU. Disse mais: Assim dirás aos filhos de Israel: EU SOU me enviou a vós.”

Nesse encontro, Moisés — um homem que vivia no deserto — experimenta uma revelação que transforma completamente sua vida. A partir daí, inicia-se para ele uma nova jornada de libertação, não apenas pessoal, mas também para todo o povo hebreu.

A motivação desta série é conduzir você por uma jornada de conhecimento do caráter de Deus — um conhecimento que transcende denominações, mas que é revelado de forma clara e direta em Sua Palavra. Nosso objetivo é que, assim como o povo hebreu experimentou libertação, você também viva transformação e renovação espiritual.

Os temas e a linha geral são inspirados no livreto Fundamental Focus, produzido pelo ministério norte-americano Genesis Road.

Que esta jornada seja profundamente significativa para você!

Todos somos culpados, até que aceitemos o contrário

Ao pensar sobre a frase “Todos são inocentes até que se prove o contrário”, conhecida como princípio da inocência presumida, percebi que ela é mais do que um dito popular: trata-se de uma garantia processual penal, prevista no artigo 5º da Constituição de 1988. Essa norma visa proteger todo acusado de um julgamento ou condenação antecipados, garantindo-lhe um processo justo, com análise equilibrada de provas favoráveis e contrárias. Assim, o acusado é considerado inocente até a conclusão do processo e a pronúncia da sentença definitiva — e somente então, se condenado, pode receber as sanções cabíveis.

No uso popular, porém, essa frase tem sido associada a um princípio da filosofia humanista, segundo o qual o ser humano é essencialmente bom, ou ao menos naturalmente guiado por motivações nobres, sendo apenas vítima das circunstâncias. Se mudarmos o ambiente, dizem, o homem produzirá bons frutos. Mas essa visão excessivamente otimista não explica a trilha sangrenta deixada pela história, repleta de guerras, massacres e injustiças, nem as inúmeras expressões diárias de egoísmo e crueldade que, muitas vezes, superam em número e intensidade os atos altruístas. Não podemos ignorar tais fatos e simplesmente declarar o ser humano uma vítima inocente das condições, sem responsabilidade pelos males que pratica. O humanismo, nesse ponto, falha em lidar com a profundidade, amplitude e persistência do mal.

E o cristianismo, como encara a realidade do coração humano?

A perspectiva bíblica é radicalmente diferente: longe de sermos primordialmente inocentes, somos todos culpados (Rm 3:23). Existe em nós algo como uma infecção moral — uma inclinação natural para buscar a própria satisfação, mesmo às custas do próximo. É verdade que, segundo Gênesis 3:15, Deus introduziu no coração humano um princípio que ainda nos impulsiona ao amor e ao bem; no entanto, mesmo essa inclinação positiva não nos torna inocentes diante de um Deus que sonda os corações. À luz das Escrituras, o princípio da inocência presumida precisaria começar assim: “Todos somos culpados…”

Mas como terminar essa frase sob a ótica cristã?
Seria “… até que se prove o contrário”? Precisaríamos provar nossa inocência? Ou sofrer as consequências da culpa? É aqui que entra a maravilha do amor de Deus — amor que não é mera emoção, mas essência do próprio Ser (1 Jo 4:8).

Deus, plenamente inocente e conhecendo a fundo a maldade humana, escolheu, por amor, assumir sobre Si as consequências e os efeitos da nossa culpa, para nos declarar justos. Ele tem todos os motivos para nos condenar, mas decide nos salvar. Alguns acusam o cristianismo de gerar angústia ao declarar que o homem é culpado e essencialmente mau; mas ignoram que, assim como um médico precisa conscientizar o paciente de sua doença antes de iniciar o tratamento, também Deus primeiro nos revela nossa condição para, então, oferecer a cura.

Essa cura é nada menos que a substituição do coração enfermo (Ez 11:19). O humanismo erra ao nos declarar inocentes e não apresentar solução eficaz para o mal. O cristianismo, sim, nos condena — mas para nos oferecer o remédio. Basta aceitar.

Assim, pela ótica bíblica, não somos culpados que precisam provar inocência, mas culpados que precisam aceitar a inocência que Deus oferece. Por isso, o princípio poderia ser reescrito como:

“Todos somos culpados, até que aceitemos o contrário.”