
Com fortes dores abdominais, você, depois de muito resistir, decide ir ao médico. Após uma hora e meia na fila, finalmente é chamado para o atendimento. Durante a conversa, descobre algumas informações que o deixam desconfortável: o médico possui a mesma formação que você, leu os mesmos livros e tem a mesma idade. Em outras palavras, ele não é formado em medicina.
É claro que essa é uma história fictícia. Mas como você reagiria caso fosse real? É ou não fundamental que o médico seja alguém diferente de você? Ele precisa ou não possuir características que o distingam de seus pacientes — como o conhecimento aprofundado sobre o corpo humano e os mecanismos adequados para corrigir problemas de saúde?
Essa diferença é essencial. E ela pode ser aplicada não apenas ao médico, mas a muitas outras situações em nossa vida, nas quais reconhecemos a necessidade de pessoas diferentes de nós, capazes de nos oferecer aquilo que precisamos.
Além da formação e da experiência distintas que qualificam o médico a nos atender com algo além do que poderíamos ter ou ser, nossa postura diante dele também deve ser diferente. Imagine que você, ao entrar no consultório, falasse sobre tudo, menos sobre os sintomas que sente. Ou que falasse sem parar, não permitindo ao médico expressar sua opinião. E, caso ele conseguisse falar, você tratasse suas palavras como comuns, tão banais quanto as de qualquer outra pessoa, e por isso não lhes desse importância. Por fim, imagine que, ao receber a receita com as orientações para sua cura, simplesmente a jogasse na próxima lixeira.
Essas posturas são evidentemente absurdas, pois nunca tratamos os médicos, enquanto médicos, como um de nós. Da mesma forma, não podemos tratar Deus como um de nós. O conceito que expressa essa peculiaridade é chamado de Santidade.
No cristianismo, a santidade de Deus traduz sua singularidade em relação à criação — a separação entre Ele e suas criaturas. Deus não é um de nós, ainda que tenhamos traços semelhantes, pois fomos feitos à sua imagem e semelhança (Gn 1:26). Isso significa que Ele pode nos oferecer o que não temos e, ao mesmo tempo, requer de nós um relacionamento diferenciado. O termo “santidade” significa, em sua raiz, separação ou distinção. Essa singularidade garante que, em Deus, há um diferencial. Participar das coisas relacionadas a Ele significa experimentar algo que não está em nós mesmos. Ele possui propriedades que jamais alcançaríamos sozinhos. Assim como na relação paciente-médico, a distinção de papéis entre nós e Deus é essencial no processo de sermos curados por Ele.
A santidade de Deus é a certeza de que Ele é diferente de nós e possui algo que só nEle encontraremos. Essa verdade se expressa em vários momentos nas Escrituras. Por exemplo, quando Moisés viu a sarça em chamas, mas que não se consumia (Êx 3:1-6), Deus ordenou que ele retirasse as sandálias, mudando sua atitude, pois o lugar era santo. Mas o que o tornou santo? A presença de um Deus Santo. Moisés ficou tão impressionado que cobriu o rosto em reverência.
Outro exemplo está em Jesus, quando encontrou pessoas comprando e vendendo dentro do Templo, espaço destinado à oração, à comunhão, à remissão e à cura (Mt 21:12-17). Ele se revoltou, expulsou os vendedores e restaurou a santidade do local.
Hoje, contudo, há uma tendência de apagar as barreiras entre o comum e o sagrado. Muitos afirmam que essa separação apenas distancia as pessoas de Deus. Porém, como vimos, ela não apenas é sustentada pela Bíblia, como é necessária. Quando dissolvemos essas barreiras, diluímos a santidade de Deus e sua singularidade. E, nesse caso, Ele se tornaria apenas “mais do mesmo”. Mas por que precisaríamos de mais do mesmo?
Assim como necessitamos de um médico semelhante, mas não idêntico a nós, precisamos de um Deus próximo, mas ainda diferente. Um Deus que sabe quem somos e quem deveríamos ser, e que pode nos dar aquilo que não possuímos. Sem a certeza de sua santidade, não podemos desfrutar plenamente de um relacionamento confiável e seguro com Ele. É justamente a certeza de que Ele é especial que me leva a ter uma postura especial diante dEle, e a receber a cura única que só Ele pode oferecer.
Portanto, ao se aproximar de Deus, lembre-se de que Ele o ama. Mas reconheça também que Ele é Santo, e que, como tal, requer que você se relacione com Ele de forma diferente. Ao se ajoelhar em submissão e entrega, reconheça que está diante de quem o conhece melhor do que você mesmo. Esteja mais disposto a ouvir o que Deus tem a dizer.
