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Quem é o Eu Sou? 1- Deus espera que você use a Razão

Segundo a Bíblia, os seres humanos se diferenciam de toda a criação por uma característica especial: foram criados à imagem e semelhança de Deus (Gn 1:26). Se considerarmos que a capacidade de julgar, avaliar e pesar evidências — ou seja, o uso da razão — é uma de nossas habilidades mais distintivas, podemos compreender que Aquele que nos criou segundo Sua imagem também é um ser cujo uso da razão é essencial à Sua natureza.
O cerne de toda experiência religiosa é estabelecer uma relação com o transcendental. Sendo nós e Deus seres racionais, surge a pergunta: como seres racionais se relacionam? A resposta pode ser iluminada pelo livro do profeta Isaías: “Venham, vamos refletir juntos”, diz o Senhor (Is 1:18). Deus nos convida a pensar junto com Ele! Esse texto, simples mas profundo, revela o desejo divino de construir uma relação com a humanidade fundamentada no uso da razão e no exercício da reflexão. Ao nos comunicarmos com Deus, Ele não deseja que deixemos de lado nossa capacidade de pensar; ao contrário, quer que a utilizemos.
Outra evidência de que a razão é indispensável em nossa comunicação com Deus está na forma como Ele escolheu se revelar a nós. Segundo a compreensão tradicional, há duas maneiras principais pelas quais Deus Se manifesta:
- Revelação geral – Deus revela aspectos de Seu caráter por meio da criação, ou seja da natureza, Suas leis e princípios. “Pois desde a criação do mundo os atributos invisíveis de Deus, seu eterno poder e sua natureza divina, têm sido vistos claramente, sendo compreendidos por meio das coisas criadas, de forma que tais homens são indesculpáveis” (Rm 1:20). Para percebermos os traços divinos na natureza, é necessário raciocinar sobre Sua obra e refletir sobre ela.
- Revelação especial – Deus Se dá a conhecer de maneira mais precisa por meio da Bíblia, que descreve Seus atributos e Seu relacionamento com a humanidade. Mas, para compreender plenamente essa revelação, também é indispensável a reflexão e o estudo.
Assim, nas duas formas de revelação, Deus nos convida a usar a razão para conhecê-Lo.
O uso da razão na comunhão com Deus também preserva nossa individualidade e garante a liberdade dos seres inteligentes. Deus não força nossa resposta à Sua manifestação; Ele espera que escolhamos, de forma consciente, nos relacionar com Ele. Essa consideração é expressa em Apocalipse 3:20: “Eis que estou à porta e bato. Se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei e cearei com ele, e ele comigo.” Aqui vemos que nossas dúvidas e questionamentos são bem-vindos; Deus sempre estará disposto a nos explicar e indicar o caminho, mas nunca nos obrigará a segui-Lo.
Diante dessas implicações, podemos concluir que qualquer experiência religiosa que não esteja fundamentada no uso da razão — ou que a suprima — não permitirá uma interação plena entre seres inteligentes e o Deus da Bíblia. Portanto, toda manifestação religiosa genuína deve promover a reflexão e o pensamento, conduzindo-nos a uma fé consciente e sólida.
Inspirado no livreto Fundamental Focus, produzido pelo ministério americano Genesis Road.
Introdução a série: Quem é o “Eu Sou”?

Em Sua última prece ao Pai, antes de ser preso, Jesus fez uma declaração de valor incalculável:
“Esta é a vida eterna: que te conheçam, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste” (João 17:3, NVI)
Só por tratar da vida eterna — isto é, da superação da morte, fonte de tanta dor e angústia ao longo da história e jamais plenamente assimilada por qualquer cultura — essa afirmação já possui um peso extraordinário. No entanto, no contexto bíblico, vida eterna significa mais do que vencer a morte: trata-se de superar toda forma de infelicidade. É viver para sempre sem qualquer sofrimento, tristeza ou angústia — algo difícil de conceber para nós, que nascemos em um mundo marcado pela dor e alternamos entre momentos de alegria e tristeza.
Essa declaração de Jesus contém o segredo supremo da existência humana. E Ele deixa claro que Sua missão foi revelar o Pai: “Eu te glorifiquei na terra, completando a obra que me deste para fazer” (João 17:4). Glorificá-Lo diante dos homens era Seu objetivo central.
Se conhecer a Deus é o segredo para uma vida plena e feliz, esse deveria ser o foco principal de nossas atividades. Contudo, no mundo pluricultural em que vivemos — com mais de 20.000 denominações apenas no cristianismo — surgem dificuldades: qual caminho seguir para conhecer a Deus verdadeiramente? Muitas vezes, enxergamos Deus através de lentes denominacionais, enfatizando crenças e doutrinas específicas em vez de buscarmos a própria pessoa de Deus.
Por isso, iniciamos esta série com o propósito de apresentar as características mais essenciais do caráter divino e despertar em você o desejo de aprofundar-se nesse conhecimento.
O título escolhido, “Quem é o ‘Eu Sou’?”, foi inspirado em Êxodo 3:14:
“E disse Deus a Moisés: EU SOU O QUE SOU. Disse mais: Assim dirás aos filhos de Israel: EU SOU me enviou a vós.”
Nesse encontro, Moisés — um homem que vivia no deserto — experimenta uma revelação que transforma completamente sua vida. A partir daí, inicia-se para ele uma nova jornada de libertação, não apenas pessoal, mas também para todo o povo hebreu.
A motivação desta série é conduzir você por uma jornada de conhecimento do caráter de Deus — um conhecimento que transcende denominações, mas que é revelado de forma clara e direta em Sua Palavra. Nosso objetivo é que, assim como o povo hebreu experimentou libertação, você também viva transformação e renovação espiritual.
Os temas e a linha geral são inspirados no livreto Fundamental Focus, produzido pelo ministério norte-americano Genesis Road.
Que esta jornada seja profundamente significativa para você!
O que o cristianismo pode oferecer à sociedade no século 21? por Timothy Keller
Todos somos culpados, até que aceitemos o contrário

Ao pensar sobre a frase “Todos são inocentes até que se prove o contrário”, conhecida como princípio da inocência presumida, percebi que ela é mais do que um dito popular: trata-se de uma garantia processual penal, prevista no artigo 5º da Constituição de 1988. Essa norma visa proteger todo acusado de um julgamento ou condenação antecipados, garantindo-lhe um processo justo, com análise equilibrada de provas favoráveis e contrárias. Assim, o acusado é considerado inocente até a conclusão do processo e a pronúncia da sentença definitiva — e somente então, se condenado, pode receber as sanções cabíveis.
No uso popular, porém, essa frase tem sido associada a um princípio da filosofia humanista, segundo o qual o ser humano é essencialmente bom, ou ao menos naturalmente guiado por motivações nobres, sendo apenas vítima das circunstâncias. Se mudarmos o ambiente, dizem, o homem produzirá bons frutos. Mas essa visão excessivamente otimista não explica a trilha sangrenta deixada pela história, repleta de guerras, massacres e injustiças, nem as inúmeras expressões diárias de egoísmo e crueldade que, muitas vezes, superam em número e intensidade os atos altruístas. Não podemos ignorar tais fatos e simplesmente declarar o ser humano uma vítima inocente das condições, sem responsabilidade pelos males que pratica. O humanismo, nesse ponto, falha em lidar com a profundidade, amplitude e persistência do mal.
E o cristianismo, como encara a realidade do coração humano?
A perspectiva bíblica é radicalmente diferente: longe de sermos primordialmente inocentes, somos todos culpados (Rm 3:23). Existe em nós algo como uma infecção moral — uma inclinação natural para buscar a própria satisfação, mesmo às custas do próximo. É verdade que, segundo Gênesis 3:15, Deus introduziu no coração humano um princípio que ainda nos impulsiona ao amor e ao bem; no entanto, mesmo essa inclinação positiva não nos torna inocentes diante de um Deus que sonda os corações. À luz das Escrituras, o princípio da inocência presumida precisaria começar assim: “Todos somos culpados…”
Mas como terminar essa frase sob a ótica cristã?
Seria “… até que se prove o contrário”? Precisaríamos provar nossa inocência? Ou sofrer as consequências da culpa? É aqui que entra a maravilha do amor de Deus — amor que não é mera emoção, mas essência do próprio Ser (1 Jo 4:8).
Deus, plenamente inocente e conhecendo a fundo a maldade humana, escolheu, por amor, assumir sobre Si as consequências e os efeitos da nossa culpa, para nos declarar justos. Ele tem todos os motivos para nos condenar, mas decide nos salvar. Alguns acusam o cristianismo de gerar angústia ao declarar que o homem é culpado e essencialmente mau; mas ignoram que, assim como um médico precisa conscientizar o paciente de sua doença antes de iniciar o tratamento, também Deus primeiro nos revela nossa condição para, então, oferecer a cura.
Essa cura é nada menos que a substituição do coração enfermo (Ez 11:19). O humanismo erra ao nos declarar inocentes e não apresentar solução eficaz para o mal. O cristianismo, sim, nos condena — mas para nos oferecer o remédio. Basta aceitar.
Assim, pela ótica bíblica, não somos culpados que precisam provar inocência, mas culpados que precisam aceitar a inocência que Deus oferece. Por isso, o princípio poderia ser reescrito como:
“Todos somos culpados, até que aceitemos o contrário.”
Deus, Ciência e as Grandes Questões: Uma conversa com três das maiores mentes acadêmicas cristãs vivas.
Poema: Conta e Tempo (por Frei António das Chagas)
Conta e Tempo
Deus pede estrita conta de meu tempo.
E eu vou do meu tempo, dar-lhe conta.
Mas, como dar, sem tempo, tanta conta
Eu, que gastei, sem conta, tanto tempo?
Para dar minha conta feita a tempo,
O tempo me foi dado, e não fiz conta,
Não quis, sobrando tempo, fazer conta,
Hoje, quero acertar conta, e não há tempo.
Oh, vós, que tendes tempo sem ter conta,
Não gasteis vosso tempo em passatempo.
Cuidai, enquanto é tempo, em vossa conta!
Pois, aqueles que, sem conta, gastam tempo,
Quando o tempo chegar, de prestar conta
Chorarão, como eu, o não ter tempo…
Frei António das Chagas, in ‘Antologia Poética’
Aceitos, e agora?

Em meio a tantas opiniões, uma palavra que se repete nos discursos atuais é aceitação. Seja no confronto de ideologias, seja em debates sociais, ela é apresentada como princípio universal para resolver conflitos. No contexto do cristianismo, tanto cristãos quanto não cristãos costumam usá-la como argumento para afirmar que aceitação é a expressão máxima do amor. Mas há quem entenda que a “aceitação irrestrita” signifique, na prática, harmonizar-se com condutas contrárias às próprias convicções. É nesse cenário que convido você a refletir sobre o verdadeiro sentido de aceitação à luz da Bíblia.
Comecemos com uma pergunta: Quem é aceito por Deus?
A resposta está nas palavras de João 3:16: “Deus amou o mundo de tal maneira…” Ou seja, todos! A vida e o ministério de Jesus confirmam isso. Ele acolheu pessoas de todas as classes e histórias, provocando até mesmo a indignação dos fariseus. Deus é amor, e em Sua essência está a aceitação plena de todos. Nada, absolutamente nada, pode afastar-nos do Seu amor.
Esse é um dos pilares da mensagem que o cristão deve anunciar: Deus te ama, e por isso, Deus te aceita! Antes mesmo de você existir, Ele já havia decidido amar e acolher você. Mas, se isso é verdade, há um passo seguinte: não se trata mais de buscarmos a aceitação de Deus, mas de decidirmos se nós O aceitaremos.
E essa é a questão crucial: Estamos dispostos a aceitá-lo como Ele é? Como nosso Criador, Senhor e Aquele que sabe o que é melhor para nós? Aceitar a Deus é reconhecer Seu poder, receber Seu amor e, ao mesmo tempo, render-se ao Seu chamado para amá-Lo acima de tudo. Isso não é uma exigência opressiva, mas um convite à verdadeira felicidade — uma que só Ele pode oferecer.
Aceitar a Deus significa confiar que Ele conhece profundamente quem somos, por que existimos e o que realmente precisamos. É permitir que Ele nos conduza, sem impor condições, deixando que Sua sabedoria determine o rumo da nossa vida. E é pela Sua Palavra que aprendemos a viver essa relação. Jesus declarou: “Se vocês me amam, guardarão os meus mandamentos” (João 14:15). Aceitar a Deus é aceitar Sua natureza, Sua vontade e Seu senhorio.
Qualquer coisa menos que isso não é aceitação verdadeira. Por isso, antes de exigir que Deus nos aceite — algo que Ele já fez —, precisamos nos perguntar: Estamos dispostos a aplicar o conceito de aceitação em sua plenitude e aceitá-Lo como Ele é?
Se a resposta for “sim”, então venha e desfrute do relacionamento mais transformador que existe!
Poesia: Ele (por Assad Bechara)
Ele
Ele é a música que inspira os meus versos,
as frases do meu louvor,
a Letra que rege a minha composição.
É Ele quem solfeja as minhas partituras
e orquestra as minhas dissonâncias.
Ele é o Compasso da minha respiração…
O Sopro do Cenáculo é o meu alento,
o Diapasão das minhas notas.
Ele é a Rima da minha poesia,
a alma das minhas palavras,
e o Dicionário dos meus silêncios…
Ele é o Amazonas Infinito
dos meus igarapés,
a completude oceânica das minhas gotas.
Ele controla os mares encrespados
e ouve o grito abafado perdido entre vagas e procelas.
O Senhor das Ondas
navega acima faz minhas tempestades
e me guia nas planícies do Oceano Pacífico…
Ele é o Farol das minhas sombras.
O Gentilíssimo não Se afasta das minhas emergências…
A Ternura Compassiva sonda os meus crepúsculos
e quando densas sombras me envolvem.
Quando as minhas folhas se murcham
e as pétalas estão secas,
Ele me hidrata com a suavidade do orvalho.
Ele é o ribeiro cristalino que percorre
os meus desertos,
a Sombra da Palmeira no ardente zênite das dunas.
Ele é a Água de Vida para os lábios sedentos…
A doce Tâmara que me revigora na jornada…
O médico dos médicos é o ritmo da minha respiração,
o Bálsamo da minha dor,
a cura dos meus impossíveis…
Ele não me deixa
na profundidade desconhecida dos vales…
Ele nunca me perdeu de vista
mesmo quando estive longe…
Ele quem me resgata das minhas tangências
e dos meus extravios…
O Regente das Galáxias me ama
e não abandona este ínfimo grão de areia…
O Matemático do Universo
sabe calcular os meus algarismos intrincados
e arruma as minhas órbitas…
O Algebrista Divino conhece as minhas rotações
e as minhas geometrias…
Ele sabe as curvas do meu voo.
Porque nem altura nem profundidade
nem longitude nem latitude,
nada poderá me separar do
grande amor de Deus.
Assad Bechara
Surpreendendo-se com o ato de pensar!
De um tempo para cá, tenho me interessado em aprender o máximo que posso sobre os processos mentais e, especialmente, sua relação com a forma como Deus realiza nossa salvação, ou cura, como prefiro chamar. Seguindo essa motivação, ao estar passeando em sites de livrarias virtuais, pela natureza das buscas que fazia, o site me sugeriu um livro com um título, no mínimo, inusitado: Pense. Para mim, seria até compreensível que esse livro se chamasse Pensar ou O Pensar, pois isso me sugeriria a ideia de se tratar de um estudo sobre o significado do pensar sob a perspectiva acadêmica, científica, filosófica, etc. Mas Pense é um imperativo; um título que ordena que pensemos, escrito por um famoso pastor, conhecido por sua mente sagaz. É claro que isso me chamou a atenção. Além disso, o subtítulo continua a instigar: “A vida da mente e o amor de Deus.” Pronto! Eu tinha que ler esse livro, pois, até então, apenas o livro Simples Demais, de Timoty Jennigns, da Casa Publicadora Brasileira, havia apresentado uma proposta de descrever o amor como um mecanismo racional e não como um sentimento ou desejo incontrolável.
A proposta de Pense é delineada logo no início: “O alvo deste livro é estimular o pensar sério, fiel e humilde que leva ao verdadeiro conhecimento de Deus, que, por sua vez, nos leva a amá-Lo, o que transborda em amor aos outros” (p. 32). Portanto, não se trata de ensinar a pensar, mas de apresentar o exercício da reflexão séria como o caminho para descobrir o amor a Deus e ao próximo. Para mim, que tenho lido alguns textos escritos por especialistas, filósofos, cientistas e educadores sobre a importância do pensar profundo e sólido, é estimulante ler o que um pastor já bem conhecido diz sobre a importância desse processo para o nosso cristianismo. Outro fato que me chamou a atenção foi o autor esclarecer que a proposta do livro não é ser um texto técnico, como alguns já escritos, mas uma reflexão, escrita por um pastor, ancorada na Bíblia sobre a importância do pensar sério para nossa comunhão com Deus. Seguindo essa ideia, o pastor Piper utiliza em toda a sua escrita a Bíblia como fundamentação principal para suas afirmações.
Em uma época na qual a experiência com o transcendental costuma ser traduzida por meio do nível da sensação emocional causada, não deixa de surpreender que um pastor tenha escrito um livro sobre a importância do pensar para sua comunhão com Deus. Entretanto, sendo um pastor com graduação em literatura, especialização em filosofia e doutorado na Alemanha em Teologia, com dezenas de livros publicados, não é de se estranhar que tenha desenvolvido uma visão especial acerca do valor do pensar para sua intimidade com Deus. Mais interessante do que a proposta inicial desse livro é acompanhar o desenvolvimento com o qual suas ideias são apresentadas. Incialmente, o autor resume seu objetivo afirmando que “este livro é um apelo a adotarmos o pensar sério como um meio de amar a Deus e as pessoas. É um apelo a rejeitar o pensar do tipo ‘ou-ou’ no que diz respeito à mente e ao coração, a pensar e a sentir, à razão e à fé, à teologia e à doxologia, ao esforço, ao esforço mental e ao ministério de amor. É um apelo a que vejamos o pensar como um meio que Deus ordenou para O conhecermos. Pensar é um dos meios mais importantes de colocarmos o combustível no fogo da adoração a Deus e do serviço ao mundo” (p. 23). Portanto, não se trata de um livro técnico ou histórico, ou uma análise exegética profunda a respeito do valor do pensar na adoração, mas, antes, trata-se de um livro que nos convida a transformar nossa adoração pela inclusão do exercício da reflexão séria e profunda sobre a verdade divina. Esse é o alvo devocional, de onde se parte do exercício sério da reflexão até a experiência de comunhão ampliada.
Após apresentar sua proposta principal, o autor se preocupa em esclarecer a posição do pensar como um meio para atingir algo maior e mais sublime, e não como o foco principal, a intimidade e o conhecimento de Deus. “Pensar é indispensável no caminho do amor a Deus. Pensar não é um fim em si mesmo. Nada, exceto Deus, é um fim em si mesmo. Pensar não é o alvo da vida. Pensar, como o não pensar, pode ser o alicerce para a vanglória. Pensar sem orar, sem o Espírito Santo, sem obediência e sem amor ensoberbecerá e destruirá (1Co 8:1). Mas o pensar em submissão à poderosa mão de Deus; o pensar saturado de oração; o pensar guiado pelo Espírito Santo; o pensar vinculado à Bíblia; o pensar em busca de mais razões para louvar e proclamar as glórias de Deus; o pensar a serviço do amor – esse pensar é indispensável em uma vida de pleno louvor a Deus.” Portanto, a tese principal é a de que o fim de todo o processo é o conhecimento verdadeiro e profundo de Deus, que não se trata de mera recepção de informações, mas é o resultado de um pensar sério e profundo sobre Suas ações.
É com uma nova proposta do significado do pensar a respeito da verdade divina que o autor se preocupa também em redesenhar a correta postura da leitura. O ato de ler assume então uma posição de atividade e não de passividade. “Ler é pensar!” Essa tese visa a conceituar uma nova abordagem da leitura do texto sagrado. A verdade é como o ouro escondido nas minas: precisa-se de esforço, pensar sério para ser extraído, e de ainda mais reflexão para ser utilizado. Portanto, a verdade, que é revelada por Deus, precisa ser escavada da maneira correta; se não for assim, não obteremos suas riquezas em plenitude.
Outra observação marcante é a de que esse livro não trata de uma defesa do pensar acadêmico. O processo nele apresentado é um pensar sério e acessível a todos, e, portanto, não restrito a uma classe mais capacitada da sociedade. Dessa forma, esclarece Piper, não há qualquer supremacia de uma mente acadêmica sobre outras. Um escritor, cientista ou filósofo não serão melhores ou possuirão melhor relacionamento com Deus por terem o hábito de pensar com profundidade e solidez. O que confere o verdadeiro poder ao exercício de reflexão é a presença do elemento espiritual, o Espírito Santo, argumenta Piper. A ideia é que precisamos desenvolver o ato de pensar para que sejamos capazes de contemplar a Deus.
Seguindo sua proposta de reposicionar o ato de pensar de forma séria no contexto de nossa comunhão com Deus, o pastor Piper analisa um dos conceitos – senão o conceito mais importante: o amor a Deus. Para o escritor, o amor a Deus se expressa mais fundamentalmente na maneira com a qual pensamos. “Nosso pensar deve ser totalmente engajado em fazer tudo o que for possível para despertar e expressar a plenitude de valorizar a Deus acima de todas as coisas” (p. 120). Entretanto, ao longo da leitura desse capítulo, achei um pouco confusa a forma de definir a dinâmica entre as afeições e os pensamentos no processo de amar a Deus. Haveria ainda muito a explorar nessa temática tão fundamental.
O livro segue abordando duas objeções fundamentais à tese defendida pelo autor: o relativismo e o anti-intelectualismo cristão. A primeira é abordada com base nos episódios em que Jesus lidou com relativistas (Mt 21:23-27), demonstrando que Ele nunca aceitou uma visão de mundo que, especialmente por comodidade, se eximisse de assumir uma verdade. O próprio Jesus, explicitamente, apresentava uma compreensão absoluta do conceito de verdade, declarando Ele mesmo ser a verdade (Jo 14:6). Além dessa abordagem, no que diz respeito ao relativismo, o autor expõe diversos problemas morais disfarçados nessa ideologia, como o orgulho e a dissimulação. Uma citação apresentada no livro me chamou a atenção, pois trata do perigo do relativismo:
“Faz pouca diferença muito ou quão pouco dos credos da igreja o pastor modernista afirma… Por exemplo, ele pode afirmar cada título e cada artigo da Confissão de Westminster, mas, apesar disso, estar separado, por um grande abismo, da Fé Reformada. O fato não é que uma é negada e o resto, afirmado; mas tudo é negado, porque tudo é afirmado apenas como útil e simbólico, e não como verdadeiro” (J. Gresham Marchen, What is Faith? Edinburg: Banner of Truth, 1991 p. 34).
Quanto ao problema do anti-intelectualismo cristão, o pastor Piper adverte como compreensões equivocadas do texto sagrado têm afastado os cristãos de um compromisso com Deus mais racional e fundamentado. Em outro momento, ele demonstra a ausência de alternativa para uma plena comunhão com Deus que se abstenha do pensar: “O problema daqueles que menosprezam o dom de pensar como um meio de conhecer a Deus é que eles não definem claramente qual é a alternativa. A razão é que não há uma alternativa. Se abandonamos o pensar, abandonamos a Bíblia. E, se abandonamos a Bíblia, abandonamos a Deus” (p. 175). Dessa forma, os discursos anti-intelectualistas conduzem os cristãos a um relacionamento com Deus insólito e nebuloso, e por isso incerto e inseguro.
Como fim desta breve análise, gostaria de comentar a respeito da parte mais profunda e impactante de todo o livro. Aquela que me ajudou a reposicionar o objetivo e o fundamento de toda a minha pesquisa acadêmica e a recuperar a razão pela qual os grandes pais da ciência iniciaram e desenvolveram esse empreendimento: a glória de Deus. O pastor Piper explica que a tarefa de toda erudição é a glória de Deus, e qualquer desvio desse propósito está corrompido por natureza:
“Portanto, a tarefa de toda erudição cristã – não apenas estudos bíblicos – consiste em estudar a realidade como uma manifestação da glória de Deus, escrever e falar com exatidão sobre a realidade, desfrutar a beleza de Deus nela e torná-la serva do bem do ser humano. Há uma abdicação da erudição quando os cristãos fazem trabalho acadêmico com pouca referência a Deus. Se todo o universo e tudo o que há nele existem pelo desígnio de um Deus infinito e pessoal para tornar conhecida e amada a Sua multiforme glória, portanto, tratar de qualquer assunto sem referência à glória de Deus não é erudição, é insurreição” (p. 239).
Como cientista cristão, ler esse livro me ajudou a resgatar a primitiva – em referência aos fundadores da ciência – razão de fazer ciência. E também me permitiu compreender que a forma – no que diz respeito ao pensar sério – de produzir e pensar a ciência não pode ser diferente daquela forma com a qual construímos nossa comunhão com Deus. O pensar sério e profundo deve ser o fundamento sobre o qual todo cristão, acadêmico ou não, deve construir sua relação com o Criador.
Editado por Michelson Borges
