
Você já parou para reconhecer a dádiva que é o esquecimento? Imagine o caos se pudéssemos lembrar de cada episódio vivido como se tivesse acontecido há apenas alguns instantes. É verdade que isso nos permitiria reviver continuamente as alegrias e os sentimentos felizes de boas experiências, mas também nos obrigaria a conviver com as lembranças constantes das dores, angústias, frustrações e traumas. Seria tanto sofrimento a administrar que dificilmente conseguiríamos manter o equilíbrio necessário para valorizar as memórias agradáveis.
Além disso, como seria possível construir relacionamentos se fôssemos obrigados a guardar, de forma tão vívida, cada decepção, traição ou dor que alguém nos causou? Como perdoar e sentir o coração leve se a lembrança não pudesse ser atenuada — ou até apagada — pelo tempo? Certamente seria quase impossível experimentar verdadeira paz em qualquer relacionamento.
Mas nós esquecemos! E, graças a isso, podemos viver e nos relacionar com alegria. Pois mesmo os maiores problemas e traumas podem ser perdoados e, ainda que não totalmente apagados, vão se desvanecendo até não mais nos aprisionarem.
E Deus? Será que Ele se esquece?
Para começar, precisamos refletir: se afirmarmos que Deus se esquece, estaríamos dizendo que existe uma informação inacessível à mente do Todo-Poderoso. Algo contraditório, pois como Aquele que criou todo o universo apenas com suas palavras seria incapaz de acessar algo contido em sua própria mente? Além disso, afirmar que Deus esquece seria limitar o Criador do tempo à sua própria criação.
Mas Deus mesmo declara: “Eu sou o Alfa e o Ômega, o Primeiro e o Último, o Princípio e o Fim” (Ap 22:13). Ou seja, Ele não está sujeito ao tempo. Para Deus, passado, presente e futuro estão igualmente diante dEle. Por isso, afirmar que Deus esquece literalmente vai contra sua própria natureza.
Então, como entender sua declaração: “Sou eu, eu mesmo, aquele que apaga suas transgressões, por amor de mim, e que não se lembra mais dos seus pecados” (Is 43:25)?
Para compreender, precisamos pensar no significado de “esquecer”. Para nós, esquecer é perder o acesso a uma memória. Porém, se mesmo lembrando de algo, escolhemos agir como se essa informação não existisse, o efeito é o mesmo de tê-la esquecido. Com o tempo, essa memória vai se enfraquecendo, até desaparecer. Mas para Deus, que não está limitado pelo tempo, o ontem é hoje, e o amanhã é agora.
Portanto, quando a Bíblia diz que Deus esquece, significa que Ele ainda tem a memória nítida diante de si, mas decide não levá-la em consideração. O perdão de Deus não é a ausência da lembrança, mas a decisão amorosa de não permitir que essa lembrança pese contra nós.
Quando nós perdoamos, mesmo que ainda doa, com o tempo a lembrança se apaga. Mas Deus é diferente: Ele continua lembrando claramente, mas escolhe amar de tal forma que a lembrança não tem poder sobre sua decisão. Seu amor é maior que qualquer frustração ou decepção.
Esse entendimento torna o sacrifício de Jesus ainda mais profundo. Ele deixou o trono do céu, cheio de amor e glória, para viver em um mundo marcado pelo egoísmo e pela dor. E como Deus não pode esquecer de fato, mas apenas de efeito, cada dor e sofrimento que Cristo experimentou nesta Terra permanecem vívidos em sua memória. Contudo, isso não diminui em nada o seu amor por nós.
Esse é o Deus com quem vale a pena se relacionar! Ele pode saber tudo o que você fez, como se tivesse acontecido ontem, mas ainda assim o ama como se você nunca tivesse errado.
Deus lembra, mas escolhe esquecer — porque te ama!
