Tudo é relativo?

Relativismo - Definição, conceito, significado, o que é Relativismo

A versão relativística do relativismo.

Temas como verdade, política, religião e felicidade são vistos como assuntos que não devem ser debatidos, pois são completamente dependentes do ponto de vista, portanto relativos. Sendo assim, a distinção entre o que é certo e errado passou a ser tão subjetiva que o único conselho aceitável é “Se te faz feliz, siga em frente, apenas não venha impor sobre mim sua forma de ver a realidade. Afinal, todos os pontos de vista são equivalentes e igualmente corretos. ” Essa postura é um símbolo da visão de realidade pós-moderna, onde a única verdade que sobrou foi aquela que afirma não haver verdade.  Bom, eu não sei se tal maneira de ver a realidade tem sua origem em teorias filosóficas, psicológicas ou sociais, e muito menos posso afirmar se, caso existam, tais teorias são fundamentadas na experiência ou observação e oriundas da aplicação do método científico, como deve ser construída qualquer teoria científica. Mas, o objetivo desse texto é refletir sobre a relação que a visão de mundo relativista possa ter com a teoria da física que é muitas vezes citada para sustentar a tese de que “Tudo é relativo”, a Teoria da Relatividade. Desta forma, o meu propósito é perguntar a Teoria da Relatividade, como proposta por Einstein: Tudo é relativo?

Para responder tal pergunta precisamos entender qual foi o objetivo que Einstein e outros tiveram quando da concepção da teoria da relatividade. Nesse caso, partiremos de um exercício mental bem simples: imagine-se sentado em uma cadeira arremessando uma bolinha para cima e a pegando de volta. Agora, tente pensar no que aconteceria se estivesse dentro de um vagão, completamente fechado, em um trem silencioso que se move com velocidade constante. Será que você seria capaz de notar alguma diferença em seu comportamento ou no da bolinha que se movimenta no ar? Caso sim, como? Falando de outra forma: você teria condições de realizar algum teste para distinguir se está em movimento ou em repouso? Segundo a mecânica, área da Física desenvolvida especialmente por Newton, não há como diferenciar entre estar em repouso ou em movimento com velocidade constante. Ambos os pontos de vista são equivalentes e obedecem às mesmas leis da física. A esse princípio, chamamos de: Princípio da relatividade de Galileu, pois foi Galileu Galilei o primeiro a identificá-lo.

Mas se o teste realizado fosse através de um feixe de luz, aparentemente, essa distinção seria possível. Pois, segundo a mecânica newtoniana, a velocidade do feixe sofreria alteração dependendo da direção para o qual fosse apontado. Sendo assim, haveria uma forma de saber se um objeto está em repouso ou em movimento com velocidade constante. Ou seja, para a mecânica os pontos de vista são equivalentes, mas não para a teoria eletromagnética, área da física que estuda a natureza da luz. Esse aparente conflito dentro de uma visão unificada da física era inaceitável, ou pelo menos precisava de uma explicação. Como, o princípio da relatividade que declara que dois observadores, sendo um em repouso e outro em movimento uniforme, com velocidade constante, deveriam obter os mesmos resultados dependeria de qual área da física estávamos aplicando?

Nesse momento podemos correr o risco de pensar que o foco do problema era garantir que o princípio da relatividade continuasse válido, mas não. A real motivação para a busca de uma solução estava em garantir que a física fosse uma estrutura unificada, e, portanto, igualmente aplicada a qualquer observador, seja ele em repouso ou em movimento com velocidade constante. Inclusive, foi a busca pela ampliação dessa visão que motivou o desenvolvimento de uma versão da relatividade que incluísse observadores que estavam se movendo com velocidade variável, a Teoria da Relatividade Geral.

Com o firme objetivo de mostrar que a física era a mesma para todos os referenciais, a proposta de Einstein partia do estabelecimento de dois postulados assumidos como verdades desde o início:

          I.            As leis da física, tanto mecânicas como eletromagnéticas, são as mesmas para todos os pontos de vista, quer em repouso ou em velocidade constante.

    II.            A velocidade da luz é uma constante e independe do movimento de sua fonte.

Dessa forma, a física, tanto mecânica como eletromagnética, vista por dois observadores em repouso ou em movimento uniforme entre si, era perfeitamente equivalente. Como consequência, Einstein precisou modificar a forma como as grandezas tempo e espaço se comportavam quando se realiza uma mudança entre tais observadores, ou seja, os dois mais sagrados absolutos, tempo e espaço se curvam ante a permanência das leis da física, mas não vamos tratar disso no texto.

O que deve ficar claro nesse ponto da reflexão é que a equivalência entre quaisquer dois observadores a respeito da realidade física, eliminando qualquer prevalência de um sobre o outro, é fundamentada na existência de uma verdade absoluta descrita pelas leis da física. Pensando de outra forma, não é o relativismo a base da teoria da relatividade, mas dois postulados absolutamente tidos como verdadeiros, mesmo que como consequência torne as medidas obtidas em referenciais diferentes relativas. Portanto, a ideia básica não foi tornar o ponto de vista de cada observador igualmente verdadeiro, mesmo que distintos, mas tornar ambos submetidos às mesmas absolutas leis da física.

A partir deste momento, podemos entender que afirmar ser a teoria da relatividade uma base para a declaração “não existe verdade absoluta, pois tudo é relativo” é mais que um erro, vai simplesmente contra os princípios fundamentais de uma das teorias mais bem testadas da ciência. Se há algum fundamento para o relativismo da sociedade pós-moderna, ele não está na teoria da relatividade. Mas se pretendemos construir uma cosmovisão a partir dela, precisamos nos harmonizar com a ideia mais básica que estrutura essa teoria, a realidade, ou as leis que a constituem, é única e igualmente aplicável a todos os observadores. Consequentemente, questões como moralidade, verdade e felicidade podem possuir uma estrutura comum e unificada sobre a qual podem ser construídas. Isso não implica que todos os observadores devem perceber a realidade igualmente, tal como acontece na relatividade, mas que devem estar fundamentados em mesmos princípios igualmente aplicados a todos. Essa visão, fundamentada na teoria da relatividade é o que poderíamos chamar de versão relativística do relativismo.

Se por um lado as atuais teorias da filosofia, psicologia ou sociologia diferem dos princípios da teoria da relatividade, há uma cosmovisão que se harmoniza tanto com existência de uma estrutura unificada de leis que regem a realidade como a equivalência entre diferentes observadores, o Cristianismo. Para ela, a visão cristã, o universo e toda a realidade foram criados por um único Ser superior, cujo poder e extensão vão muito além de tudo o que criou. Um criador inteligente e intencional que criou a realidade fundamentada em leis universais. Estas, por serem fruto de uma mente inteligente, podem ser compreendidas por outras mentes inteligentes feitas à imagem e semelhança da primeira, o que explica a efetividade do empreendimento científico. Tais leis são igualmente aplicadas a todos os observadores do universo, o que faz com que não haja observador privilegiado. Nesse contexto as leis do universo não são meros atributos de uma realidade que foi se estruturando ao acaso, mas são a forma como o Criador, inteligente, onipotente e proposital criou toda realidade.

A visão de mundo cristã implica também que o significado da realidade não é construído pelos seres que a habitam, mas foi definido por quem criou a realidade e as leis que a regem, sendo, portanto, essa realidade descrita por leis absolutas cujos seres que nela habitam devem obedecer. Por fim, o cristianismo é a melhor versão relativística do relativismo, ao manter a relatividade das perspectivas de cada observador, ainda que fundamentada em princípios e leis universais absolutos.

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