O Sábado era ou não guardado antes do êxodo?

by Allan Swart which

Uma possível dificuldade em responder essa pergunta reside no fato de não haver um texto específico indicando que o sábado deveria ser guardado antes da apresentação da lei no Sinai. Entretanto, essa exigência se mostra não obrigatória pois há outras informações bíblicas que não possuem uma descrição explícita, mas ainda assim são tidas como verdadeiras pela simples inferência lógica obtida de outros textos. Vejamos por exemplo o caso de Caim que fora condenado por assassinato (Gn 4:7) mesmo que não há registro bíblico de uma lei contra matar alguém. Seria então a idolatria aceitável antes do Sinai, já que a lei escrita advertindo contra essa prática não havia sido apresentada? Em acréscimo a isso, podemos pensar sobre os anjos que pecaram quando não havia registro escrito de lei (II Pe 2:4). Na mesma linha de pensamento, como condenar o pecado de Adão (Rm 5:12-14), dos sodomitas (Gn 13:13) e Ló (II Ped 2:8), sendo que o pecado é descrito como a transgressão da lei (I Jo 3:4)? O próprio Paulo afirma que onde não há lei não há transgressão (Rm 4:15) e que pela lei vem o conhecimento do pecado (Rm 3:20). Sendo mais específico, junto a Tiago, Paulo deixa claro que a lei a que se refere são os dez mandamentos (Rm 7:7; Tg 2:911).

Contudo, aqui caberia outra pergunta: Como, mesmo não estando escritos, os dez mandamentos poderiam ser aplicados como lei vigente? Nesse momento um exemplo da história caberia bem. Na Inglaterra, por muitos anos, a lei usada nos julgamentos era conhecida como “lei comum” ou “direito consuetudinário”, a qual não estava escrita. O conhecimento sobre essa lei era passado de forma oral pela cultura e a não existência de algo escrito não dava o direito a alegação de não ser um código conhecido. Dessa forma, os cidadãos ingleses foram julgados por uma lei não escrita durante muitos séculos. Nesse contexto poderia então haver uma pergunta quanto a lei dos dez mandamentos: Onde ela estaria registrada? O texto de Romanos (Rm 2:14 e 15) demonstra que as pessoas podem ser julgadas pela lei escrita em seu coração, mesmo quando não tem conhecimento objetivo, por exemplo na forma escrita, da lei. Portanto, a menos que reconheçamos a validade das leis não escritas, estaríamos acusando Deus de ser injusto ao condenar os pecados do povo antes do êxodo.
Seguindo o raciocínio de alguém que continue a questionar o sábado como um mandamento, mesmo antes destes serem escritos nas pedras, poderíamos perguntar: Por quê então Deus decide apresentar esse texto ao povo de forma escrita, já que havia uma lei no coração? Aqui é importante considerar o que estava acontecendo naquele contexto. Deus estava construindo uma sociedade que o representaria em diversos aspectos, sejam culturais, religiosos, hábitos de higienes, leis, sistema de adoração, sistema jurídico e etc… Por conseguinte, era importante esclarecer precisamente os parâmetros legislatórios. Mas, talvez, a razão mais forte para Deus apresentar sua lei moral de forma escrita, seria o grau de distanciamento que esse povo, base para construir a nação que apresentaria sua verdade ao mundo, estava de Deus. Foram mais de 400 anos vivendo em um regime de escravidão e por isso de decadência moral, intelectual e religiosa. Se hoje, basta uma geração para esquecermos os traços distintivos de nossa cultura, imagina quatro gerações, aproximadamente. Em resumo, a grandeza do propósito e a degeneração do povo levaram Deus redigir sua lei na forma escrita.

Nesse momento, alguém que ainda mantivesse a objeção inicial sobre a validade da ordem de guarda do sábado antes do êxodo, poderia afirmar que o sábado possuísse um caráter diferenciado de outros mandamentos. Por essa razão, os outros, como não matar, não furtar, ou adorar outros deuses, eram válidos anteriormente antes da compilação escrita, enquanto que o sábado não. Mesmo considerando um tanto forçosa essa linha de pensamento pelo fato de não haver evidências que indiquem que o sábado era diferenciado dentro do decálogo, podemos avaliar algumas evidências bem contundentes que se harmonizam com o argumento construído nesse texto. Em Gênesis (Gn 2: 2 e 3) vemos que o Sábado é distinguido dos outros dias da semana por Deus escolher esse dia para descansar e, a partir dessa ação, o abençoa e santifica. Desta forma o sábado possui os atributos da benção e santificação que o distingue dos outros dias. Nesse momento poderia haver a afirmação de que isso não implicava que o homem deveria guardar o sábado. É uma alegação um tanto estranha, sendo que o mesmo Deus que teve um comportamento diferenciado quanto a esse dia utiliza tal comportamento como base argumentativa para justificar a guarda do sábado (Ex 20:11). Por que essa justificativa seria válida após o Êxodo, mas não para a guarda do sábado antes? Aqui o correto deveria esperar que fossem apresentadas evidências bíblicas tão fortes quanto a alegação feita.  

 Outro ponto que é contrário a interpretação de o sábado não ser válido antes de Moisés é a forma de comunicação entre Moisés e o povo quando do episódio do Maná (Ex 16: 22-30). O caráter da comunicação não é de apresentação de algo novo, mas é uma comunicação direta, como uma reafirmação de algo que o povo já conhecia, mesmo que não praticava. O que estava acontecendo era o resgate de uma norma perdida por muitos. O vínculo motivacional é direto com a criação. Mesmo que em Deuteronômio haja o acréscimo de outra justificativa, a libertação do cativeiro egípcio, as duas motivações se somam, não se anulam. O sábado passa a ser uma alusão a criação e a redenção, ambas executadas por Deus de forma literal.

Portanto, a apresentação do sábado no início da criação, a prevalência dos dez mandamentos ao longo da história, mesmo antes de serem escritos, a vinculação motivacional do sábado do decálogo com o descanso de Deus e a forma como Deus cobra de seu povo a guarda do sábado demonstram que este era válido antes do êxodo.

Baseado no capítulo 3 do livro “Respostas a objeções” de Francis D. Nichol, da Casa Publicadora Brasileira.

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